terça-feira, 25 de outubro de 2016

O sonho

Como é que eu haveria de começar a escrever isto sem sentir um arrepio inadequado a percorrer-me o corpo inteiro? Seria mesmo eu se não admitisse que preciso deste tipo de sensações para me sentir totalmente vivo? Seria capaz de respirar novamente se não soubesse que o que me falta está, na verdade, tão à minha frente que quase lhe bato sem querer?

Quando me vi forçado a abandonar a sombra da minha vergonha, soube de imediato que tudo seria mais fácil do que podia esperar. Sabia que o mundo à minha volta ia acabar por dançar comigo a dança do nada, compassadamente com o tema do vazio. Ainda assim não consigo ter a certeza se cheguei mesmo a dançar. Quero acreditar que sim, enquanto a minha alma me tenta enganar com um não. Logo se verá, espero eu.

Serei mais eterno do que a tal eternidade prometida? Ou não passo de mais um punhado de terra na terra de outra pessoa? Quem me dera ser diferente de maneira a conseguir admitir ser o que não sou, mas a verdade é que não sei. Não sei e nem sequer sei se vale a pena pensar muito nisso. Cada vez que penso, cada vez que dispenso dois segundos que sejam do que tenho a fazer, ganho a dor de cabeça aguda a que já estou habituado há mais do que gostaria de admitir.

Levem-me para lá, se eu não conseguir levar-me. E se for pedir muito, peço desculpa, mas era o que queria. Sentir que sou capaz de fazer o que sempre me prometi fazer, sem qualquer réstia de importância seca. Sem qualquer dúvida de que, sem medo e sem nódoas de esperança maligna, lá vou conseguindo alcançar o paraíso dos que sonham, pelo menos, tentar.

Por enquanto acordo do sonho.
E quando me volto a deitar...sei lá. Só espero que acordar seja tão pacífico como quando me enrolei naqueles cobertores perfeitos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O Presunto do Jumbo

Tudo o que irei escrever de seguida passou-se no dia 10 de Outubro, na passada segunda-feira.

Eu não gosto de ir às compras. 

Para além de serem muitos os motivos que me levam a escrever uma frase tão simples e crua, posso resumir tudo enunciando apenas alguns dos mais fortes:

Número Um: Eu não gosto muito de pessoas. 

Pode parecer um tanto geral mas o facto é que, quando te vês rodeado de muita gente desconhecida, o mais certo é encontrares lá pelo meio uma ou outra mais passada dos carretos.
São muitas as vezes em que certas atitudes me fazem querer esquecer por momentos que sou um ser humano e, embora saiba que existe muita gente boa no mundo, parece sempre que me deparo com o oposto.

Número Dois: Eu não gosto de perder muito tempo nas ditas cujas.

Normalmente prefiro ser apenas eu a fazer compras. Ou, ainda melhor, que façam as compras por mim.
Quando sou eu, já tenho um plano memorizado antes de sair de casa. Um plano da forma mais rápida que existe para seleccionar os produtos. Tenho a noção das várias posições dos distintos produtos que necessito comprar e depois é só criar um mapa invisível na minha cabeça e guardá-lo no meu crânio.
Depois é só chegar lá e fazer as compras, perdendo o menor tempo possível.

Número Três: Tenho sempre azar na escolha da caixa que me vai atender.

Sim. Sempre.
Se vou para a que tem mais fila, vou para a que tem mais fila.
Se vou para a que tem menos fila,  uma cliente é amiga da senhora da caixa e ficam a falar  do "meu Tiaguinho que já está tão crescido!!!". Entretanto estou eu a pensar que o Tiaguinho bem que podia...nada...

Essas são as básicas, todos acabamos eventualmente por passar por situações similares.
Mas a que me aconteceu na passada segunda-feira foi incrível, mesmo para mim que sou um entendido no que toca ao estudo dos maus comportamentos humanos. 

Já há algum tempo que prefiro as caixas automáticas. São rápidas. Basicamente isso.
Havia uma disponível mas parecia que alguém se tinha esquecido de uma caixa de presunto. Ainda tentei olhar para ver se me lembrava quem tinha sido a última pessoa a utilizá-la, mas não vi ninguém.

Não havia fila nenhuma atrás de mim e a caixa à minha frente estava vazia por isso, e estando sempre atento para que ninguém a fosse utilizar e acabasse por se deparar com a mesma situação que eu, peguei no presunto e fui colocá-lo na caixa à minha frente.
Quando acabo de o poisar, aparece alguém do nada para ir a essa mesma caixa.
Esse alguém parecia ser estrangeiro. Tom de pele e olhos e etc mas também porque tinha uma mochila gigantesca às costas de quem anda a fazer um interrail ou sei lá e porque tinha seleccionado o inglês para proceder ao pagamento nessa caixa.

Mal eu me viro para a minha vida e para as minhas compras, vejo uma caixa de presunto a voar pelo ar e ir parar mesmo no meio do corredor onde as pessoas estavam a passar.
Houve até um velhote que escorregou um pouco e que quase caía. 

É apenas mais uma a adicionar a tantas outras tropelias por mim vividas em situações sociais.

E no fundo até foi engraçado  ir às compras, agora que penso. E ver TODA a gente a olhar com olhares intimidadores e reprovadores para o gajo, fez-me o dia.

Sou daltónico, mas tenho quase a certeza de que ele ficou vermelho.


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Na Praia da Barra

Quando foi a última vez que se riram quase até desmaiar?
Eu digo-vos quando é que foi a minha.


Tudo aconteceu quando fui à Praia da Barra dar uma volta com a minha namorada.
Estava à procura de um lugar para estacionar o carro. Não um bom lugar, nem nenhum daqueles estrategicamente bem posicionados e não sei quê.

Não.
Um lugar.
um lugar.

Porque naquele Domingo de Verão, aquilo estava assustadoramente lotado.

Já me tinha arrependido de ir quando, bem lá à frente, vi que um casal caminhava pelo passeio com sacos recheados de compras.
Diminuí a velocidade e fiz o máximo para não os perder de vista. Quando me aproximei deles já eles estavam prontos para entrar no seu carrinho! Espectacular!

Fiquei parado em segunda fila e a fazer pisca para a direita. E permaneci assim durante algum tempo.
Quando finalmente o casal decidiu sair, e eu me preparava para estacionar, um carro apareceu do nada e estacionou lá.

Era um velho, acompanhado pela sua velha.

Cabrão do velho.

Eu ao início disse rir até desmaiar?
O que eu queria dizer era rir para não matar.


Ahahah, velhos..





sábado, 10 de setembro de 2016

O melhor lanche de sempre

Esta, para além de ser uma história verídica, é também uma história muito curta. 
A sua longevidade não é de grande importância, visto ter sido uma das situações com mais piada por que eu já passei na minha vida. Se bem que na altura, embora tenha gerado em mim um riso seco, a situação foi a cereja no topo do bolo para um dia difícil, onde a sorte me parecia ter abandonado para sempre.

Precisava de chegar à estação de comboios e já estava atrasado.

Para além de nessa altura ainda não ter, nem carta de condução, nem carro, o caminho a percorrer era catastroficamente longo. Lembro-me de estar um calor tão abrasador que me sentia genuinamente a derreter.

Saí de casa com todas as malas às costas porque, para além de não ter o número dos táxis de Aveiro,
preferia suar eternamente em vez de gastar dinheiro. Naquela altura a minha mentalidade era um tanto diferente da de agora, e muito mais vaga.
O que é certo é que saí de casa e quando fui derrubado por aquele choque térmico, cheguei a questionar-me quanto à eventualidade de desistir ou não da ideia de apanhar o comboio.

Em relação ao interior, o exterior estava tão escaldante que chegava a roçar o nível do insuportável. Tanto que, desde que abri a porta até me sentar no comboio, suei quase como se tivesse uma torneira ligada na minha testa. Sim, eu chego a apanhar o comboio. A história sempre chega a ter um final feliz, se bem que bastante complicado.

O epicentro desta aventura foi muito breve, e a situação cómica que a preencheu foi muito curto mas ainda hoje, quando me recordo de tudo o que aconteceu, ainda esboço um sorriso e penso na cara que devo ter feito quando tudo aconteceu.

Já tinha tudo preparado e o tempo tinha sido totalmente esquematizado para ainda conseguir passar num café e comer qualquer coisa. E foi o que fiz.
Entrei no primeiro café que me apareceu à frente, onde eu nunca tinha tido o prazer de consumir fosse o que fosse.
Constatei então que o café era também uma pastelaria. Espectacular!

Embora tivesse estudado o tempo que tinha disponível para não perder o comboio, sabia que não tinha tempo para me sentar e comer ali. Por isso, caminhei para o balcão e esperei que me atendessem.

Demorou um bocado, mas a minha impaciência foi substituída por uma expressão de puro amor: era uma velhinha, que devia ser a dona do estabelecimento, que caminhava na direcção do balcão para atender o meu pedido.
E lá vinha ela, com um sorriso estampado na cara, umas bochechas grandes e muito rosadas, e uma aura que transmitia paz e amor.

Continuou a sorrir para mim e disse, com a voz cansada e tremida:
-Olá, meu jovem. Uma boa tarde! Então o que é que vais ser?
Eu sorri.
-Boa tarde, eu queria um folhado misto e um compal de laranja, se faz o favor.
-É para já, é para já. - sempre com um sorriso a querer rasgar-lhe a cara.

Enquanto ela preparava as minhas coisas eu não conseguia disfarçar o meu olhar atento a tudo o que ela fazia.
Parecia mesmo que era só ela que trabalhava ali mas, por incrível que parecesse, as mesas do interior do café/pastelaria estavam quase todas cheias.
Via-se que tinha alguma dificuldade em fazer as coisas e eu sorria por ela, mesmo com todas as dificuldades, continuar toda bem disposta e contente de estar a fazer o que, pelos vistos, adorava fazer.

Embrulhou tudo num saco, entregou-mo e disse quanto eu lhe devia.
Eu paguei e ela deu-me o troco.
Faltavam vinte cêntimos mas nem sequer quis dizer nada. Ver uma senhora idosa a sorrir por fazer o que gosta, depois de tantos anos, valia muito mais do que alguns cêntimos.

Despedi-me dela e acordei para a vida. 

Com tudo aquilo já me tinha atrasado um pouco, mas dava tempo mais do que suficiente para chegar à estação a horas.

Recomecei a caminhada e comecei a desembrulhar o meu lanche.

Quando olhei para o que estava lá dentro ri-me durante uns bons minutos.

Como tinha estado atento a olhar para a senhora, nem sequer tinha reparado o que é que ela tinha colocado no saco. Muito menos vi alguma coisa quando ela me entregou tudo, porque já se encontrava tudo no interior do saco opaco.

Eu tinha pedido um folhado misto e um compal de laranja.

Ela deu-me um folhado de carne e um ice tea de pêssego.

Teve tanta piada estar tudo trocado que eu nem sei como é que não desmaiei de tanto rir, principalmente por estar tanto calor.


Nos anos seguintes fui sempre por lá para lanchar quando ia para a estação.
E embora não houvesse uma única vez que a senhora acertasse o meu pedido, sentia-me sempre tão bem ao sair de lá por saber que ela estava tão feliz.



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Disse bom dia e a fdp nem me respondeu


Há determinadas situações que nos defecam na cabeça.

Não sou ninguém para referir o quão irritante pode ser o dia-a-dia das pessoas no geral, mas visto possuir um leque variadíssimo de acontecimentos soberbos relativamente à "irritância" humana, acho por bem deixar aqui um exemplo por escrito que me deixou, tanto desconfortável, como completamente furioso.

Por um motivo importantíssimo tive de abandonar o calor e a fofura da minha cama.

Todos sabemos o quão difícil isso consegue ser e acho que são muito poucas as vezes em que nos apercebemos que somos uns heróis sem capa quando conseguimos deixar para trás um mundo quentinho e repleto de sonhos impossíveis de alcançar, para de seguida mergulharmos num mundo barulhento, chato e sempre disposto a pisar-nos os dedos das mãos.

Ainda assim conseguimos abandonar o sítio que menos queremos abandonar naquele momento. E ainda assim conseguimos interiorizar que é para o nosso bem, mesmo com os olhos carregados pelas toneladas de impaciência, stress e aquele "Porra, o que eu não dava para dormir mais cinco minutos".

Ninguém tem culpa que eu seja uma daquelas pessoas que acorda mal-disposta e que necessita de umas boas horas acordado até começar a portar-se como um ser humano normal.

Quem olha para mim nessas horas iniciais pode muito bem pensar que eu ou tenho problemas, ou fiz parte do casting do Senhor dos Anéis como Orc figurante. E consegui o papel.

Lá está, sei bem que posso ser muito difícil de aturar porque naqueles primeiros momentos em que abro os olhos, já só consigo pensar quando é que os vou poder fechar novamente para dormir um sono merecido ao final do dia.

Mas o que é que isto tudo tem a ver com o título "Disse bom dia e a fdp nem me respondeu"? Boa pergunta.

Eu tentei ao máximo fazer com que aquele determinado dia fosse diferente.
Não foi porque algo de espectacular tivesse acontecido na noite anterior ou algo do género. Apenas pensei que os que me rodeiam não merecem de levar com uma cara carrancuda logo pela manhã. Que não merecem ter de acordar e vislumbrar um Orc figurante.

Por isso, nessa determinada manhã, fiz o possível e o impossível para parecer o ser humano mais normal de sempre.

Tentei sorrir mais. Assobiar um bocadito. Cantarolar enquanto lavava os dentes (cuspi-me todo). E etc.

Quando estava a sair do prédio onde vivo, senti que alguém se aproximava de mim. Uma rapariga que vivia no rés-do-chão, creio eu.
Ela aproximou-se e, como eu já me encontrava mais do lado de fora do que do lado de dentro, segurei-lhe a porta.

Só naquela.
É que nem foi por ter decidido mudar de atitude naquela manhã. Numa outra manhã, iria estar a segurar-lhe a porta com a minha cara carrancuda do costume. Seguraria a porta só porque sou educado.

Fiquei aqueles segundos à espera que ela saísse, sempre a segurar a porta.
A rapariga passou por mim. Não olhou para mim Não agradeceu. Não disse nada.

Eu até a sorrir estava...
Até a sorrir estava!
A SORRIR DE MANHÃ!

Fiquei espantado com a atitude daquele estafermo.
Fiquei ali a segurar a porta feito de estúpido e ainda disse "Bom dia" com uma voz trocista.
Nada.
A gaja nem me respondeu.

Escusado será dizer que todas as pessoas com que me cruzei naquele dia, tiveram que aturar um Orc muito chateado.

É há-de ser sempre assim.