sábado, 10 de setembro de 2016

O melhor lanche de sempre

Esta, para além de ser uma história verídica, é também uma história muito curta. 
A sua longevidade não é de grande importância, visto ter sido uma das situações com mais piada por que eu já passei na minha vida. Se bem que na altura, embora tenha gerado em mim um riso seco, a situação foi a cereja no topo do bolo para um dia difícil, onde a sorte me parecia ter abandonado para sempre.

Precisava de chegar à estação de comboios e já estava atrasado.

Para além de nessa altura ainda não ter, nem carta de condução, nem carro, o caminho a percorrer era catastroficamente longo. Lembro-me de estar um calor tão abrasador que me sentia genuinamente a derreter.

Saí de casa com todas as malas às costas porque, para além de não ter o número dos táxis de Aveiro,
preferia suar eternamente em vez de gastar dinheiro. Naquela altura a minha mentalidade era um tanto diferente da de agora, e muito mais vaga.
O que é certo é que saí de casa e quando fui derrubado por aquele choque térmico, cheguei a questionar-me quanto à eventualidade de desistir ou não da ideia de apanhar o comboio.

Em relação ao interior, o exterior estava tão escaldante que chegava a roçar o nível do insuportável. Tanto que, desde que abri a porta até me sentar no comboio, suei quase como se tivesse uma torneira ligada na minha testa. Sim, eu chego a apanhar o comboio. A história sempre chega a ter um final feliz, se bem que bastante complicado.

O epicentro desta aventura foi muito breve, e a situação cómica que a preencheu foi muito curto mas ainda hoje, quando me recordo de tudo o que aconteceu, ainda esboço um sorriso e penso na cara que devo ter feito quando tudo aconteceu.

Já tinha tudo preparado e o tempo tinha sido totalmente esquematizado para ainda conseguir passar num café e comer qualquer coisa. E foi o que fiz.
Entrei no primeiro café que me apareceu à frente, onde eu nunca tinha tido o prazer de consumir fosse o que fosse.
Constatei então que o café era também uma pastelaria. Espectacular!

Embora tivesse estudado o tempo que tinha disponível para não perder o comboio, sabia que não tinha tempo para me sentar e comer ali. Por isso, caminhei para o balcão e esperei que me atendessem.

Demorou um bocado, mas a minha impaciência foi substituída por uma expressão de puro amor: era uma velhinha, que devia ser a dona do estabelecimento, que caminhava na direcção do balcão para atender o meu pedido.
E lá vinha ela, com um sorriso estampado na cara, umas bochechas grandes e muito rosadas, e uma aura que transmitia paz e amor.

Continuou a sorrir para mim e disse, com a voz cansada e tremida:
-Olá, meu jovem. Uma boa tarde! Então o que é que vais ser?
Eu sorri.
-Boa tarde, eu queria um folhado misto e um compal de laranja, se faz o favor.
-É para já, é para já. - sempre com um sorriso a querer rasgar-lhe a cara.

Enquanto ela preparava as minhas coisas eu não conseguia disfarçar o meu olhar atento a tudo o que ela fazia.
Parecia mesmo que era só ela que trabalhava ali mas, por incrível que parecesse, as mesas do interior do café/pastelaria estavam quase todas cheias.
Via-se que tinha alguma dificuldade em fazer as coisas e eu sorria por ela, mesmo com todas as dificuldades, continuar toda bem disposta e contente de estar a fazer o que, pelos vistos, adorava fazer.

Embrulhou tudo num saco, entregou-mo e disse quanto eu lhe devia.
Eu paguei e ela deu-me o troco.
Faltavam vinte cêntimos mas nem sequer quis dizer nada. Ver uma senhora idosa a sorrir por fazer o que gosta, depois de tantos anos, valia muito mais do que alguns cêntimos.

Despedi-me dela e acordei para a vida. 

Com tudo aquilo já me tinha atrasado um pouco, mas dava tempo mais do que suficiente para chegar à estação a horas.

Recomecei a caminhada e comecei a desembrulhar o meu lanche.

Quando olhei para o que estava lá dentro ri-me durante uns bons minutos.

Como tinha estado atento a olhar para a senhora, nem sequer tinha reparado o que é que ela tinha colocado no saco. Muito menos vi alguma coisa quando ela me entregou tudo, porque já se encontrava tudo no interior do saco opaco.

Eu tinha pedido um folhado misto e um compal de laranja.

Ela deu-me um folhado de carne e um ice tea de pêssego.

Teve tanta piada estar tudo trocado que eu nem sei como é que não desmaiei de tanto rir, principalmente por estar tanto calor.


Nos anos seguintes fui sempre por lá para lanchar quando ia para a estação.
E embora não houvesse uma única vez que a senhora acertasse o meu pedido, sentia-me sempre tão bem ao sair de lá por saber que ela estava tão feliz.



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